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Literatura e Alcoolismo

por Moacyr Scliar
Publicado na Zero Hora do dia 24/05/03.



Faulkner é só um dos nomes da extensa lista de escritores americanos conhecidos por sua fixação ao álcool. Outros poderiam ser lembrados: Edgar Allan Poe (que morreu na sarjeta, em Baltimore, completamente bêbado), Herman Melville, Jack London, John Fitzgerald, Ernest Hemingway, Raymond Carver, Truman Capote. Dos sete escritores americanos que ganharam o Nobel de Literatura, só dois não bebiam. Donald W. Goodwin, professor de psiquiatria na Universidade de Kansas e autor de um livro chamado Álcool e o Escritor, diz que, entre as profissões mais afetadas pela cirrose do fígado (comumente associada a alcoolismo), estão, em primeiro lugar, os bartenders e, em segundo, os escritores. Nancy J. Andreasen, professora de psiquiatria na Universidade de Iowa, estudou 30 escritores que trabalharam no workshop de literatura mantido por aquela universidade. Um terço deles eram etilistas. Em um grupo de pessoas escolhidas para comparação, a prevalência de alcoolismo era 7%.

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Esses números são muito pequenos para provar uma definitiva associação entre álcool e literatura, ou arte em geral. Mas correspondem a uma impressão que é bastante disseminada e que vem de muito tempo. Horácio, o grande poeta da Roma antiga, costumava dizer que, bebendo só água, ninguém conseguiria produzir um poema lírico que valesse a pena. Além disso, não era só a álcool que os escritores recorriam; no século 19, ópio e literatura era uma associação freqüente, da qual é exemplo o clássico Confissões de um Comedor de Ópio, de Thomas de Quincey.

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Supondo que o uso de álcool seja mais freqüente entre os escritores, qual seria a razão para isso? A busca da inspiração, como sugere Horácio?

Pouco provável. As drogas, entre as quais o álcool se encontra, têm efeito justamente oposto: acabam destruindo a criatividade. O que leva o artista à dependência são outras coisas. A solidão, para começar. Artistas trabalham sozinhos. Se estão inspirados, não precisam de companhia. Mas, quando falta a inspiração - aquilo que é conhecido como "bloqueio do escritor" -, sobrevêm a ansiedade e a depressão. Nesse caso, o álcool acaba sendo um refúgio, ainda que ilusório. No final, o talento e a própria vida acabam destruídos pela bebida.

Álcool é uma coisa extremamente disseminada em nossa sociedade e o uso de bebida por gente famosa, escritores inclusive, certamente contribui para reforçar o charme do hábito. Mas trata-se apenas de aparência, de enganadora ilusão, como o sabem os terapeutas que trabalham nessa área. É preciso desmistificar a bebida alcoólica. O governo está propondo reduzir o horário para propaganda de produtos com álcool. No que está inteiramente correto. O álcool já destruiu vidas demais em nosso mundo. Inclusive vidas de artistas de talento.



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